A avó


O salão enorme, agora parecia muito maior do que realmente era. Apenas alguns parcos amigos vieram lhe prestar a última homenagem. Da família, somente nós três permanecíamos ali junto a seu corpo inerte. Três irmãos, os últimos da sua linhagem de seres onde a vivacidade e a ignomínia reinavam.

Não seria tão estranho, quanto eu imagino, voltar para casa e já não a encontrar lá.

Quando éramos crianças (época em que a inocência nos dá a liberdade de falar qualquer coisa, sem que isto pareça uma blasfêmia) brincávamos de sermos os fantasmas dos que já foram, arrastando correntes pelo chão dos corredores do velho casarão, estragando o lustre dado a eles. Imaginávamos como seria quando todos estivessem mortos, e só restasse nos três.

"Qual seria a sensação de sermos os últimos? E qual espectro tomaria as correntes nas mãos. E qual de nós seria o último?" 

Agora que ela se foi, restou o vazio... A sensação de pesar e nostalgia que estas horas sempre trazem. Aquelas pessoas estavam ali porque realmente gostavam dela apesar do seu gênio forte e egoísta.

No final da tarde, quando seu corpo for guardado dentro da terra, só restará voltar ao casarão. Tomar posse daquilo que nos restou.

E será apenas eu, a casa e o silêncio...

 O casarão foi o lugar onde ela escolheu para formar a sua família há mais de setenta anos. Era um casarão antigo e desbotado pelo tempo, construído em meados do século dezoito, que mesmo estando fadado a ruir um dia, assim como ela, ainda permanecia imponente. Assim como ela teimava em estar ali no seu caixão luxuoso.

Todos que fizeram parte da sua vida morreram: seus filhos, seus irmãos, seus maridos... Enterrou todos, só nós três permanecemos.

Fui uma mulher que por muito tempo se recusou a morrer. Contou cento e sete anos, vivendo mais do que é permitido à maioria dos seres humanos. Seu corpo abrigava muitas rugas, um ar cansado na tez que se fez presente nos últimos anos e um olhar profundo de quem finalmente havia entendido tudo.

 Cansado também estavam seus passos, que já não conseguiam levantar todo o peso do corpo e seus pés a arrastava pela casa calçada em seus chinelos de couro criando um som característico, um chiado... Quase um sussurro.

 Era fisicamente ativa, andava por toda a casa, porém não organizava as idéias direito e sua mente a traía o tempo todo. Ao caminho do banheiro mudava a direção e ia para a cozinha acabando por fazer suas necessidades ali mesmo. Brigava com todos, humilhava e enquanto pode levantar o braço agredia fisicamente quem ousasse contrariá-la. Era enérgica e bruta, nunca fora uma mulher simpática e amável.

Em raros momentos de lucidez falava do passado como se este houvesse ocorrido a pouco e mantinha uma conversa solta por horas a fio. 

O tempo não acinzentou seus cabelos, não lhe tirou a sagacidade, mas lhe acrescentou um poder que só cabe aos senis.

 A pesar de tudo isso, criamos um elo muito forte nesse pouco tempo que passamos juntas. Aprendi a olhar para ela não mais como a avó briguenta e chata, mas como uma mulher frágil e dependente, uma mulher que teve seus traumas e dores.

 Voltei para casa assim que meus irmãos foram embora para retomar suas vidas de dois dias atrás.

 Parada de frente ao portão, observava o casarão, um pouco mais soturno agora, mantinha a sua altivez arquitetônica, apesar de tudo a sua volta parecer sem cor. Um vento invernal tornava muito mais fria a noite que já ia alta.

 Ao entrar pensei vê-la sentada no sofá olhando pela janela o horizonte, como fazia todas as tardes. A vi levantar seu corpo cadavérico e sua imagem sumiu tão rápida e nitidamente quanto surgiu.

Enquanto preparava minha xícara de chá noturna, percebi que os últimos dias não foram tão tranquilos, mas uma boa noite de sono sanaria isso.

 "Preciso dormir!"

Acordei de sobressalto ouvindo sua voz me chamando. Poucas horas haviam se passado desde que deitara. A cama e o quarto, que desde pequena sempre foram meus pareceram flutuar levemente por alguns segundos. Não identificando de imediato se dormia ou sonhava, aconcheguei-me novamente entre os cobertores. Após um e outro cochilo abri meus olhos novamente. Não escutei correntes sendo arrastadas... Escutei a chuva caindo no telhado, os cachorros da vizinhança latindo intermitentemente, o assovio do vento na janela e um chiado...

 Chiado de passos cansados...  




Comentários

  1. Voçê é muito doida mesmo; não sei como consegue colocar as palavras em seu devido lugar,e assim criar essas histórias..
    Te admiro muito e vc tem talento.....

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