A avó
O salão enorme, agora parecia muito maior do que realmente era. Apenas alguns parcos amigos vieram lhe prestar a última homenagem. Da família, somente nós três permanecíamos ali junto a seu corpo inerte. Três irmãos, os últimos da sua linhagem de seres onde a vivacidade e a ignomínia reinavam.
Não seria tão estranho, quanto eu imagino, voltar para casa e já não a encontrar lá.
Quando éramos crianças (época em que a inocência nos dá a liberdade de falar qualquer coisa, sem que isto pareça uma blasfêmia) brincávamos de sermos os fantasmas dos que já foram, arrastando correntes pelo chão dos corredores do velho casarão, estragando o lustre dado a eles. Imaginávamos como seria quando todos estivessem mortos, e só restasse nos três.
"Qual seria a sensação de sermos os últimos? E qual espectro tomaria as correntes nas mãos. E qual de nós seria o último?"
Agora que ela se foi, restou o vazio... A sensação de pesar e nostalgia que estas horas sempre trazem. Aquelas pessoas estavam ali porque realmente gostavam dela apesar do seu gênio forte e egoísta.
No final da tarde, quando seu corpo for guardado dentro da terra, só restará voltar ao casarão. Tomar posse daquilo que nos restou.
E será apenas eu, a casa e o silêncio...
Todos que fizeram parte da sua vida morreram: seus filhos, seus irmãos, seus maridos... Enterrou todos, só nós três permanecemos.
Fui uma mulher que por muito tempo se recusou a morrer. Contou cento e sete anos, vivendo mais do que é permitido à maioria dos seres humanos. Seu corpo abrigava muitas rugas, um ar cansado na tez que se fez presente nos últimos anos e um olhar profundo de quem finalmente havia entendido tudo.
Era fisicamente ativa, andava por toda a casa, porém não organizava as idéias direito e sua mente a traía o tempo todo. Ao caminho do banheiro mudava a direção e ia para a cozinha acabando por fazer suas necessidades ali mesmo. Brigava com todos, humilhava e enquanto pode levantar o braço agredia fisicamente quem ousasse contrariá-la. Era enérgica e bruta, nunca fora uma mulher simpática e amável.
Em raros momentos de lucidez falava do passado como se este houvesse ocorrido a pouco e mantinha uma conversa solta por horas a fio.
O tempo não acinzentou
seus cabelos, não lhe tirou a sagacidade, mas lhe acrescentou um poder que só
cabe aos senis.
Enquanto preparava minha xícara de chá noturna, percebi que os últimos dias não foram tão tranquilos, mas uma boa noite de sono sanaria isso.
Acordei de sobressalto ouvindo sua voz me chamando. Poucas horas haviam se passado desde que deitara. A cama e o quarto, que desde pequena sempre foram meus pareceram flutuar levemente por alguns segundos. Não identificando de imediato se dormia ou sonhava, aconcheguei-me novamente entre os cobertores. Após um e outro cochilo abri meus olhos novamente. Não escutei correntes sendo arrastadas... Escutei a chuva caindo no telhado, os cachorros da vizinhança latindo intermitentemente, o assovio do vento na janela e um chiado...





Voçê é muito doida mesmo; não sei como consegue colocar as palavras em seu devido lugar,e assim criar essas histórias..
ResponderExcluirTe admiro muito e vc tem talento.....