Modificar ou Não Modificar uma obra?


Eu sempre gostei muito da história de Dorian Gray, porém quando lançaram o filme e vi que modificaram totalmente o personagem me senti ofendida. Na minha cabeça, Dorian sempre vai ser aquele homem esguio, alto, loiro, de personalidade ácida e presunçosa. Não que o ator seja um mal ator, acontece que ele não casa com a descrição do personagem do livro.

E é por essas e outras que sou contra filme que se dizem “SER o LIVRO”. Porque, salvo um ou outro a maioria é uma tentativa muito rasa e barata de trazer às telas a história e personagens do livro.

A primeira versão cinematográfica de "Morro dos Ventos Uivantes" é a que mais chega perto da obra Literária e mesmo assim falha em muita coisa, como por exemplo o Heathcliff ser representado por um homem loiro quando o original é um cigano de origem búlgara, o que faz descreve-lo com a “pele olivada e cabelos lisos e negros”, o que também não o torna negro como nas últimas versões.


Bom, uma das últimas decepções da minha vida foi a série “Entrevista com o vampiro” tendo como idéia antecessora o universo dos vampiros de Anne Rice. Aqui a construção da série está ótima! Os atores estão perfeitos, a direção muito boa, a fotografia tá sem defeitos, mas… Não tem nada a ver com as histórias passadas no universo dos vampiros descritos nos livros de Rice. Em “Entrevista com o vampiro” (o filme) Tom Cruise ficou loiro para ser o mais fiel possível ao personagem original dos livros e ficou simplesmente perfeito. Quando há mudanças na fisionomia dos personagens eu não consigo identificar a história. Acaba sendo outra história, outra coisa e perde o encanto. Vou ficar ainda orfã de uma série de “Entrevista com o vampiro”, infelizmente. Se querem fazer uma adaptação de um livro que sigam a descrição das coisas, lugares e pessoas de forma a ser o mais fiel possível.


Não dá pra fazer um "Orgulho e Preconceito" fiel na pré história e nem um "Drácula" de Bram Stocker chinês, ou africano, ou australiano, ou americano… O mesmo se dá com "Otelo", impossível fazê-lo como um personagem branco dos olhos azuis, ou uma "Celie" de “A cor púrpura” uma americana com traços europeus, uma "Dana" de “Kindred” uma jovem asiática... Acredito que se querem diversidade nas obras deve-se lutar para se ter essa diversidade nas obras e não modificar as que já estão escritas. Simplesmente porque não faz sentido pegar uma obra já pronta e torná-la outra coisa. Então o mais coerente a se fazer é modificar a visão de quem escreve para que se crie histórias com diversidade de personagens e entender que antigamente não se tinha essa diversidade por diversos fatores sociais e nada vai mudar isso.O que temos que mudar é daqui pra frente. Isso é mais importante do que criar essa rivalidade sem nexo forçando a modificação de personagens e da própria história fazendo-a se encaixar em novos contextos onde jamais a caberia. Uma outra saída é fazer essas obras modificando sim os personagens então, mas, o entanto, deixando claro que é apenas uma releitura livre da obra original e não uma versão fiel à obra original. Já que na releitura livre dá para trazer uma história que se passa na China do século I d.C para a moderna Los Angeles do século XXII d.C! E isso é maravilhoso! Só que tudo isso exige um novo roteiro, uma nova estética e tudo isso é trabalhoso, complexo, cansativo e ninguém quer fazer não é mesmo? É muito mais fácil pegar algo pronto, trocar a cor dos personagens, a identidade sexual e "zaz" tá pronto! E assim, transformam algo que era extremamente rico em uma coisa rasa e que não tráz a real diversidade pelo simples fato de não estar ali, de nunca ter estado ali, pelo simples fato de não pertencer àquilo.

O que me soa é uma ideia de vingança: "Ahhh! Como vocês, brancos, cis, héteros, nos humilharam e nos marginalizaram tanto tempo agora vamos tomar de vocês a representatividade que sempre tiveram." - Isso não funciona gente!

É preciso criar essa representatividade com novos personagens, trazendo à tona personagens que podem contribuir para essa representatividade.

É simples? É fácil? É comum? Não, definitivamente não! Mas é necessário! E vai levar um certo tempo.

Porém será permanente e efetivo e as novas gerações poderão conviver com mais igualdade entre si sem essa disputa sem o menor sentido e que só gera mais atrito.

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