Capítulo 2
OUTONO de 1026
Village des chasseurs, França
Ele precisava correr o máximo que podia...
Mesmo sem saber o que iria encontrar, não podia arriscar. Setúbal não conseguiria matar todos sozinho. De qualquer forma, bastava conseguir salvar Dândara e Lutia.
Em um determinado ponto da estrada, achou melhor desviar e adentrar os campos. Passaria pelo entorno da pequena aldeia que o vira crescer e que agora ele mesmo trouxera o medo para perto dos seus. As pequenas casas de um só cômodo se amontoavam de três em três. Mas não passavam de vinte e quatro. Corria, as pernas doíam, o peito parecia que explodiria. Tinha que chegar a tempo... Tinha que chegar antes que...
— Merda! — Setúbal gritou antes de cair no chão em meio a um líquido espesso e mal cheiroso no qual escorregara.
— O que é isso? Sangue? — olhou em volta. O sangue se misturava a urina e as fezes.
Seu semblante caiu e rapidamente substituiu a ira pelo pavor. Sua mandíbula tremia, mal conseguiu ficar em pé novamente. Não queria acreditar naquilo que seus olhos viam. Por todos os lados havia sangue, excrementos e corpos, ao menos o que restara deles. Intestinos e cérebros se misturavam em meio à grama e a terra, cabeças adornavam as portas das casas com expressões distorcidas, a lua e o fogo iluminavam alguns corpos empalados e outros esfolados... Podia ouvir alguns gemidos, mas não podia dar a eles o alivio da morte, não agora, não havia tempo.
"Desci ao inferno!" — pensou.
Homens, mulheres e crianças... Todos estavam completamente dilacerados, como se um animal selvagem os tivesse estripado. Mas sabia que não fora isso. Sabia que Silas era o pintor de tão miserável tela.
Seu peito queimou diante da ideia de que Silas poderia fazer o mesmo a Dândara e a Lutia. Levantou-se e continuou a correr. Ao chegar à colina, lá estavam: Silas, Nicolas e Rubén.
Silas segurava Dândara enquanto a forçava beber seu sangue negro e maldito. Lutia estava caída nua perto de Rubén, e Nicolas vinha ao seu encontro para matá-lo. Setúbal tentou conter o medo, mesmo sabendo que seria inútil, pois o demônio já o havia farejado. O medo, a excitação, o desejo, deixavam os Sombrios alucinados. Nada para eles era melhor que alguém com medo e excitação o suficiente para dar a eles o mais puro e denso Lícor.
Nicolas usou tanta força para empurrar Setúbal que este caiu praticamente ao lado de Lutia, percebeu que ela estava morta. Abraçou a irmã e em meio a lágrimas balbuciava palavras desconexas. Queria matar a todos, mas seus ossos doíam e da sua boca puderam ouvir um grito, misto de medo e ódio. Gritava... De ódio, de arrependimento, de dor... Duas de suas costelas e seu braço esquerdo estavam quebrados.
— Tem que ser muito idiota para acreditar que poderia salvá-las seu imbecil! — disse Silas soltando os cabelos loiros de Dândara deixando-a cair. Ela se debatia freneticamente, estava tendo convulsões violentas.
Setúbal conhecia aqueles sintomas. Sua alma saltaria de seu corpo e se partiria em três em instantes. Dândara estaria perdida para sempre, tornando-se um deles. Esse seria o seu castigo, pior que a morte como imaginou. Ter seu amor transformado naquilo que mais matou em vida.
— Elas não tinham nada a ver com isso Silas.
Silas passou as mãos pelos cabelos escuros, negros, alguns fios brancos cintilavam a luz das tochas.
— Como não? Uma é sua irmã e a outra sua amante... Não há melhor forma de fazer com que você sinta, que tirar de você aquilo que mais ama.
Silas grudou com as mãos nos cabelos de Setúbal e o obrigou a olhar para a mulher que horas atrás estava tão cálida e linda em sua cama.
— Olhe para ela assassino de "monstros". Gosta desta alcunha não é mesmo? Consegue fitá-la? Veja o que fez a ela. Se tivesse ido embora como lhe disse, nada disso teria acontecido. Sua aldeia, seus familiares, sua irmãzinha querida... Ah! Ela gritou como uma cadela no cio enquanto Rubén trepava com ela... Foi divertido, deliciosamente divertido eu diria. — Silas sorriu enquanto olhava para Rubén que lhe retribuiu o olhar e o sorriso demoníaco. Ficou em pé dando as costas a Setúbal.
— Silas, vou matar você! — gritou Setúbal enquanto tentava em vão atingir Silas.
— Levante-o! — ordenou Silas a Nicolas que imediatamente puxou o homem moribundo e sem forças.
O Sombrio aproximou-se de Setúbal, olhou em seus olhos e sentiu-se desejoso em deixa-lo ir. A valentia e o medo que Setúbal exalava o deixavam tentado a libertá-lo, só para capturá-lo novamente e o torturar até o fim.
"Podia quebrá-lo." — pensou. Admirava aqueles que mesmo sabendo da certeza do seu fim o enfrentava. Setúbal seria um Sombrio exímio.
Devia ter uns trinta e cinco anos, a mesma idade que ele próprio quando fora quebrado. Porém, sabia que jamais Setúbal devia escapar. Seria um grande problema. Ele matou alguns dos mais fortes Sombrios. Matou Syl e Silas sofreu com isso, mais do que poderia supor que sofreria. Desde que foi quebrado e isso foi há muito tempo, se esforçou para ser o mais frio e exato possível. Não permitia a si mesmo que falhasse. Isso poderia significar sua morte... Significou a morte de Syl, seu irmão. A única coisa que lhe restou da sua vida humana e miserável. Syl era apenas um menino... Um menino de quatro mil anos, mas ainda assim um menino. Ao se quebrar deixou de ser escravo e pode finalmente ser gente. E trouxe Silas consigo. Setúbal tirou tudo que remetia Silas à humanidade. Agora quatro mil anos depois, Setúbal tira-lhe tudo aquilo que lhe remetia a humanidade. Só que não mais, e mesmo tendo Merrian e Elijah o traído e defendido o assassino, Syl estava vingado. Nunca poderia reaver suas cinzas, Syl jamais voltaria à vida.
— Não, meu caro! "EU" vou matar você! — ao falar isso Silas enfiou o punho com força dentro do estômago de Setúbal, que apenas soltou um gemido rouco e surdo. A carne e a pele cederam facilmente à força de Silas que puxou para fora as entranhas de Setúbal.
— Aproveite a dor, assassino de monstros! — disse Nicolas enquanto o soltava com violência ao chão.
Setúbal realmente era um assassino. Tinha uma estatura grande, alto, de cabelos escuros, olhos castanhos, um rosto marcante. As várias cicatrizes que se espalhavam pelo corpo denunciavam que era um homem de luta, muito mais que de campo.
"O idiota do Syl mereceu morrer." — pensou Setúbal. Syl estuprava e matava, sem o mínimo de sutilidade. Fazia horrores e o fazia porque gostava, quebrou dois irmãos gêmeos que mal haviam atingido oito anos. Ele e Silas nunca negaram ser o que eram. Apesar de que, diferentemente de Syl, Silas procurava agir da forma mais ética possível. O mais limpo que pudesse. O mais certo que conseguisse. Para Syl a humanidade não passava de gado. Silas, no entanto, ainda respeitava um código de ética antigo, onde jamais deve ultrapassar os limites. Setúbal sempre soube que seu fim seria esse. Só não imaginou que perderia a todos. Inclusive Dândara. A culpa o consumia mais que a dor física. Tentava colocar seus órgãos para dentro da cavidade inutilmente. Seu intestino escorregava de suas mãos e a dor o enfraquecia. Estava morrendo enquanto via Dândara que, estranhamente, ainda se contorcia no chão. Havia algo errado, já era para ter parado, Dândara não estava se quebrando. Setúbal observou com pena que ela estava morrendo e assim demoraria dias!
A respiração já estava difícil, podia sentir a morte tocando-lhe. Ouviu um barulho... Gritos... A cabeça de Rubén caiu perto da sua. Sua visão estava turva, mas viu quando Nicolas foi partido ao meio por Merrian.
"Claro, ele leu a carta... A pequena Gina conseguiu entregar a Merrian seu pedido de ajuda. Silas estava perdido agora!" — pensou enquanto sorria.
Merrian passou os olhos pelo campo procurando pelo amigo. Quando chegou perto pode perceber que para Setúbal havia chego tarde demais. Grigore, Elijah e alguns outros Sombrios estavam com ele.
Setúbal quis falar algo...
— Cale-se. — disse Merrian.
— Es... cute-me... Merrian...
Chegou mais perto do amigo para ouvi-lo. Sabia que para ele seu tempo havia chego ao fim. Merrian não era muito alto, de olhos azuis, usava barba, de cabelos vermelhos era descendente dos antigos Celtas, atraente às mulheres, tinha bom coração. Sempre se vestia com elegância, como os príncipes e reis. Merrian e Silas foram quebrados na mesma época, com diferença de dias um do outro. Silas por Syl e Merrian e Syl por Paulopus de Fertugus, um Grego que ultrapassava seis mil e duzentos anos. Foi quebrado ninguém sabe por quem, aos cinquenta anos. Sabia que ele mesmo matou a família. Era um ser desprezível. Até mesmo Silas perdia pra ele. Já Elijah foi quebrado por Silas.
— Dan... dara... A... jude... — balbuciou Setúbal.
Merrian olhou para a moça a se contorcer. Silas deve ter dado a ela sangue insuficiente e não a matou propositadamente. Ela sofreria horrores antes de sucumbir definitivamente.
— Tor... ne-a... uma de... vo... cês... Por... favor...
Ele olhou para o amigo e Merrian confirmou-lhe a vontade, mesmo sem ter isso em mente. Não era de seu agrado quebrar pessoas por motivos assim. A morte vem a todos. Evitá-la é impossível aos mortais. Porém não podia negar isso ao moribundo.
— Eu farei.
— Prometa-me!
— Prometo!
Merrian olhou para Grigore que assentiu com a cabeça. Grigore puxou a espada e com um só golpe cortou a cabeça de Setúbal.
— Desculpe-me! — disse ele ao assassino de monstros.
— Agora ele pode descansar em paz. — disse Elijah beijando o pequeno crucifixo que trazia junto ao peito.
— Sim. Diferente de nós! — afirmou Merrian enquanto caminhava para perto de Dândara.
Elijah e Merrian queimaram os corpos de Ruben e Nicolas, Setúbal foi enterrado como os cristãos. Silas era inteligente. E usava isso a seu favor. Teve sua vingança e isso lhe bastaria. Forte demais para que morresse, estava ferido, Merrian o ferira, mas se recuperaria logo. No entanto não precisariam se preocupar com ele por um bom tempo...
Agora aquela mulher era sua responsabilidade. E teria que cumprir sua promessa. Pegou-a no colo e levou-a consigo para Roma.
No caminho a Roma, Elijah quebrou Dândara tornando-a uma Sombria. Sua primeira vítima foi um aldeão que andava sozinho pela noite, este saciou sua necessidade e com os seus ossos, Dândara montou seu Baú de Ossos. Era uma boa mulher. Aprendia rápido. A tristeza da perda de Setúbal desapareceria com o tempo e Elijah estaria lá quando isso acontecesse. Elijah um negro forte, era escravo, foi comprado por Paulopus para servir de reprodutor. Esse era um costume do Grego, assim tinha a sua disposição vários jovens para saciar sua Primus. Elijah fugiu das mãos de Paulopus. Ele iria encontra-lo e o torturaria por dias antes de matá-lo. Silas o livrou disso.
Silas e Syl foram os únicos que tinham algum controle sobre Paulopus.
Elijah gostou de Dândara desde quando a viu junto a Setúbal. A amava, mas refreou o quanto pode seu desejo. Primeiro por respeito a Setúbal, depois por respeito ao luto que surgiu em sua alma após a morte dele. A alma dela não se quebrou em três partes e isso significava que ela era a Tertius de algum Sombrio.
Quando alguém é transformado em Sombrio, sua alma se quebra em três partes. A Primeira é chamada de Primos, ela volta ao corpo quase que imediatamente e mantém o sombrio vivo, é fraca, não pode se manter sozinha e por isso o Sombrio tem que se alimentar de Lícor de tempos em tempos para manter a Primus em equilíbrio. O Lícor nada mais é que a energia que emana de todo ser vivo. O Sombrio pode passar dias apenas absorvendo o Lícor dos seres vivos, mas para se manter consciente e vivo precisa de sangue e carne com certa frequência. É possível sobreviver por algum tempo de Lícor, do sangue e da carne de animais comuns, uma boa saída se estiver em uma prisão de quartzo, mas isso não seria viver, talvez nem sobreviver.
A Primus é eterna, nada consegue destruí-la, se um Sombrio é dilacerado pode retornar de volta a vida com apenas um pouco de sangue ou com a Secundus que uma vez misturada aos restos do Sombrio assim que este volta à forma humana, volta para dentro do Periapt e a sua forma original, para ser usada novamente se necessário. Isso só é possível graças a Primus que se mantém ligada a qualquer vestígio do Sombrio que exista. A segunda é a Secundus, muitos apenas se referem a ela como Periapt. Lembra uma fumaça quase líquida, etérea, de coloração escura, um azul escuro cintilante. É armazenada dentro de um frasco chamado Periapt, este fica junto ao Sombrio como um amuleto, a maioria prefere deixar escondida em algum lugar seguro, já que ela pode trazer o Sombrio de volta a vida. A Tertius é a terceira parte, a mais importante de todas, assim que se quebra e se separa do Sombrio desaparece, seu objetivo é encontrar um recém-nascido que esteja fraco demais para sobreviver. Logo que ele morre a Tertius se funde com a sua alma e cresce nesse corpo. É uma sina terrível, em mil anos de vida sabia-se apenas de dois Sombrios que encontraram suas Tertius, o resto são apenas histórias, lendas criadas para dar aos Sombrios a falsa esperança de encontrar um pouco de amor em meio a tanto horror. É a Tertius que faz, ilusoriamente talvez, com que o Sombrio tenha algum sentido sobre a terra. Alguns a chamam de Alma gêmea, outros de amor simplesmente. O certo é que assim que o Sombrio a encontra torna-se indestrutível. Nada pode detê-lo, sua vida passa a ter sentido. A união de um Sombrio com outro Sombrio pode durar eras, mas sabe-se que tem fim. Por mais que se amem. Já com a Tertius é eterna, enquanto os dois viverem. Se ela for humana o Sombrio ou Sombria a quebrará, este é o único modo de ficarem juntos e se o humano se recusar a ser um Sombrio, quando morrer retornará em outro ser humano e assim sucessivamente até que ser torne um Sombrio.
Dândara já estava bem após um ano desde que fora quebrada. Elijah faria o possível para que ela o aceitasse, e faria o necessário para protegê-la. Tentando tornar sua existência menos cruel.
O sol nascia em mais um dia comum em Roma. Desde que Silas envenenou Dândara havia passado muitas horas até que Elijah a pode quebrar por completo. Isso não é usual. Ou o Sombrio mata, ou usa, ou quebra. Fazer o que Silas fez com Dândara... Não se faz, mas não se espera nada mais sutil dele.
Silas, assim como Merrian e Syl, era um dos Sombrios mais antigos que existiam. Já viveram por mais de quatro mil anos. Quando Grigore e Elijah foram quebrados tornaram-se amigos. Viveram bem por um longo tempo. Mas as atitudes de Syl afastaram Merrian, Grigore e Elijah de Syl, e Silas, que nunca abandonou o irmão. Mesmo muitas vezes não concordando com seus métodos de Usar os humanos. As Sombras trazem muitas angustias, mas também proporciona muitos meios de sobrevivência fácil. Principalmente nesses tempos difíceis onde homens se confundem com monstros.





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