Capítulo 1 - SOMBRIOS




 

INVERNO de 2015

Liebe, distrito de Udine, Itália

 

A pequena medalha de ouro, onde vários símbolos antigos ainda eram visíveis, pendia da corrente de elos mínimos enquanto Merrian fazia movimentos com os dedos provocando uma ação de pêndulo no pingente.

Um objeto antigo, que ganhou de sua mãe, mais antigo que ele por sinal. Sorriu triste quando o pensamento surgiu. O tempo tornou impossível sentir algo por ela. O seu rosto, o seu cheiro, o seu toque... Por mais que se esforçasse, não se lembrava mais. Seu nome era Mahara. É difícil lembrar detalhes de uma época tão remota. Depois de um tempo, as lembranças turvam-se de tal forma que nada mais resta. Tudo o que sobra são borrões indefinidos e tentar lembrar de algo tão antigo é o mesmo que olhar através de uma lente engordurada pelo suor e embaçada pelo vapor quente.

O tempo tem suas dádivas e vários suplícios que se encarregam de criar e destruir. Merrian viu impérios nascerem radiantes e portentosos e os viu cair em total desgraça com a mesma fúria com a qual surgiram. Presenciou a ascensão e ruína de homens e mulheres que julgavam a si mesmos donos de um poder que só existia em suas mentes doentes, um poder tão frágil e delicado quanto o mais fino cristal. Dos vícios da humanidade os únicos que se permite ceder é aos livros e as artes. Todos os outros são fagulhas irregulares, simples demais perto do que podem vir a ser.

A paixão e o amor não cabem a seres como ele, apesar de nem todos pensarem da mesma forma. Apaixonou-se inúmeras vezes e odiou outras tantas com a mesma intensidade.

Tudo é dual! Monstros e homens, todos somos ambíguos demais.

Deixou de procurar um sentido a sua existência muito tempo e entendeu que nada mudará como as coisas devem ser. E se foi Deus ou o Demônio que redigiu as linhas que conduzem os passos que damos em vida, não faz a menor diferença.

Das desgraças que podem recair ao um Sombrio a paixão é de longe a mais sutil. No entanto, pode significar um conjunto de dores das quais nem mesmo o pior dos seres mereça experimentar. Sente certa angústia com relação a Grigore por isso.

"Mas como saber o que é correto a se fazer? Se algo der errado e essa mulher o trair?" — é difícil afirmar se Grigore suportaria um dos flagelos que a Ordem estaria disposta a impor-lhe caso o pior acontecesse.

A vida tem sentidos interessantes e misteriosos demais para serem questionados. Em relação a si mesmo, pensou que não suportaria... E lá estava... Trezentos anos após sofrer um dos piores flagelos já experimentados por um de sua espécie:

"A Taça da Dor"...

Pelo "Sono de Thanatus" nunca passou, o que para muitos seria uma maldição, para ele teria sido uma benção. Ao menos o pouparia de ver as prostitutas experientes que contratava hesitarem ao sentir o asco subir por suas entranhas ao verem seu rosto.

Levou a mão ao rosto e sentiu o frio da máscara de veludo que o cobria. Nunca mais o viu, não lembrava mais como eram suas feições. Tiraram-lhe tudo, menos a única coisa que deveriam: a vida!

"O que estava pensando?" — suspirou profundamente.

Condenara a si mesmo a isso.

Grigore, além de Agostín e Dândara, eram os únicos que o viam desde... Bem... Elijah o viu uma vez, logo depois do seu mergulho na "Taça do Diabo".

No fim, todos tentam, erroneamente, ficarem à vontade em sua presença quando está sem a máscara, mas sabe que fazem um certo esforço para esconderem o incomodo.

Não é tão ruim assim, e sabe disso. Merrian entende que tudo vai se normalizar e que aos poucos cada um dos seus amigos vai deixar no passado todo o horror que sofreram.

Cada um segue com suas próprias aspirações.

Trezentos anos pode parecer muito tempo para seres humanos comuns, mas não para seres como eles.

Para Merrian o tempo acaba por apresentar aos poucos a solidão que lhe aguarda. Principalmente agora que Grigore está envolvido com essa mulher... Isso vai dar a Elijah e Dândara animo para seguirem com seus planos de viverem em uma região bucólica da América do sul.

Nada mais natural... Não é porque ele desistiu de viver que todos devam fazer o mesmo.

Grigore permaneceu tempo demais sozinho e a solidão não é um bom conselheiro para um Sombrio. Sente falta das longas conversas que tinham...

No entanto, não é justo que todos paguem por um erro que ele se deixou cometer. Todos sofreram por tempo demais as consequências de um erro que foi só seu. Chegou a hora de todos se libertarem.

Já havia decidido que passaria seu tempo lendo e resolvendo a maioria dos problemas da RIINGS, assumiria a administração total da empresa de agora em diante, já que Grigore estaria mais distante e Agostín iria passar um período com Werber em Moira, na Argentina.

Seria só ele naquela mansão, Dândara e Elijah se mudariam também...

A RIINGS, nos últimos quatro séculos, se transformou em uma das maiores redes de joalherias do mundo. Sua sede fica em Udine na Itália, mas preferiram residir em Liebe quando voltaram de Moscou. Liebe era um lugar mais calmo, menos povoado e de difícil acesso. O frio não era tão intenso quanto os países do norte e para esse fim de inverno, os menos sensíveis podiam facilmente passar as tardes com roupas leves.

— Ahhh! Itália... Sempre o palco das mais insólitas histórias. Onde os Deuses e os Demônios reinam plenos. — disse em voz alta.

Merrian levantou-se, colocou o colar no bolso da calça e foi até a sacada do seu quarto com a ajuda da guia. Virou o rosto contra o vento e tentou montar na mente a paisagem fria e densa da região fronteiriça de Liebe. Paisagem que não via desde a segunda metade do século XVII.

A "Taça do Diabo" o deixara cego do olho direito e no esquerdo uma fina membrana de pele e cílios recobria todo o conjunto ocular, tornando sua visão limitada a vultos e sensações. Já tentara de tudo que lhe parecia viável para melhorar, mas a rapidez com que seu organismo se regenera é quase impossível, atualmente, de reverter o estrago feito pelo ácido.

Grigore quis a brasileira desde o primeiro instante que a viu. Não parava de falar nela quando voltou de Roma a oito meses. Este jantar seria muito importante, já que ela daria a ele a resposta que estava aguardando ansiosamente nos últimos dias. Ele havia decidido contar a ela quem era e que pretendia trazê-la para as Sombras tão logo estivesse pronta. Isso ia contra as recomendações da Ordem das Sombras que recomendava fazer se esta fosse a vontade do Sombrio. Revelar aos humanos quem éramos era algo terminantemente proibido. Grigore, no entanto, quis dar a Suzana a opção de escolha e mesmo que algo saísse do controle ele não a mataria como era esperado pela Ordem.

Não era de seguir regras... Na verdade nenhum deles era. Merrian sempre colocou em dúvida se realmente algum Sombrio dava importância real às insanidades que a O.S.S. (Ordem da Sociedade das Sombras) pregava. Todos tomam os cuidados necessários, mas nada, além disso. Tornar público o que somos pode se tornar o fim de todos isso é obvio, mas a Ordem tenta fazer dos seus dogmas leis imutáveis e inflexíveis, isso poderia ter funcionado no passado, mas se tornara obsoleto agora, principalmente após a ascensão tecnológica.

Paulopus transformou os Sombrios em uma grande sociedade secreta e obscura. Suas regras servem como índices, mas jamais chegarão a ser pontes.

Sombrio que ousar colocar outros em perigo é castigado de forma primitiva. O que é justo! Existem quatro consequências para cada uma das infrações. Três delas não eram comumente usadas e Merrian Gael conhecia bem duas delas. O problema, na verdade, estava em tudo aquilo que elas representam e o quão amplas podem ser suas interpretações:

1. Jamais colocar em risco o anonimato dos Sombrios.

2. Não colocar em perigo a Sociedade das Sombras.

3. Jamais possuir a Tertius de um Sombrio, salvo se este estiver no "Sono de Thanatus" ou realmente no “Baú de Ossos”.

4. Jamais matar a Tertius de um Sombrio, mesmo se este estiver no "Sono de Thanatus", mas é permitido se este estiver morto.

5. Não contar sobre sua natureza a alguém, a não ser que tenha a firme certeza de que vai trazê-lo para as Sombras ou que este seja sua Tertius, nesse caso tem três por de sol para quebrá-lo.

6. Não matar um Sombrio, salvo se este representar um perigo para a existência de outro Sombrio, sua Tertius ou para a Sociedade das Sombras.

7. Se alguém descobrir quem o Sombrio é verdadeiramente mate-o ou quebre-o.

Para tais infrações uma das quatro sentenças mais horripilantes esperava o Sombrio: a Taça da Dor, também chamada da Taça do diabo; o Voo do Dragão; a Sina de Prometheus ou o Sono de Thanatus.

“Mas a morte? A morte para um Sombrio é inexistente. O mais próximo disso é se encontrar com aqueles que sucumbiram em suas mãos no Baú de Ossos.” — sorriu.

Para Merrian não havia redenção, um arrependimento ou um lugar onde poderia sanar seus pecados! Não havia morte de fato!

A Taça de Dor, baseia-se em mergulhar a cabeça do Sombrio amarrado com correntes de quartzo, o único material capaz de deter um Sombrio, em um tanque de vidro cheio de "óleo de vitríolo" o famoso: Ácido Sulfúrico (H²SO⁴) e Peróxido de Hidrogênio (H²O²).

A dor é horrível sim, porém esta não é a pior parte. A pele, enquanto derrete, como resultado da reação química, entra pelos orifícios como nariz, ouvido e boca. A garganta queima violentamente e se tem a sensação clara de sufocar. E isso culmina em um choque já que o organismo do Sombrio com sua rápida regeneração acaba por criar mais e mais tecidos em uma tentativa insana de repor o que se lesiona fazendo com que o rosto do Sombrio se transforme em várias e várias camadas de pele e músculos distorcidos um por cima do outro. Depois de alguns minutos nesse pequeno inferno, retiram o infeliz e o mergulham dentro de outro tanque contendo uma base neutralizadora. Comumente vinagre com iodo ou vinho com suco de limão. A dor provocada por esta segunda ação é tão intensa que a nada se compara. A pele, a gordura e os músculos que estão moles, algo como um composto gelatinoso, se contraem rapidamente sem dar a chance para que a natureza do Sombrio restaure seus ferimentos. É negado a este o Lícor, sangue ou carne por dias. O Sombrio é guardado em uma câmara de Quartzo Rosa e assim ele se cura muito lentamente, fazendo com que sua aparência seja algo indescritivelmente bizarro de se olhar.

Vôo do Dragão não é menos insuportável que o anterior. O Sombrio é amarrado pelos braços em extremidades opostas de forma que fique ajoelhado. A linha da coluna é aberta da nuca ao cóccix e é feito quatro ou cinco cortes que acompanham as costelas de cada lado. Nos ferimentos é derramada uma mistura de sal de quartzo e óleo para retardar a regeneração. Grandes ganchos ligados a correntes são encaixados na coluna e nas costelas, na outra extremidade das correntes, penduradas a uma roldana, estão três cavalos que são impelidos a andar por poucos metros, a distância suficiente para que a coluna e as costelas saltem para fora do Sombrio, levando seus pulmões junto. Logo depois tem seus órgãos recolocados dentro de si novamente embebidos a uma mistura de sal de quartzo e óleo que fazem com que a cicatrização seja demorada e pouco eficiente no sentido estético.

No Sono de Thanatus, o Sombrio é crucificado e queimado, em alguns casos sua cabeça é preservada e suas cinzas são guardadas. Em outros ... Todo seu corpo é queimado e suas cinzas são divididas em quatro partes sendo cada uma delas descartadas em um lugar diferente. Uma vez encontradas, mesmo que seja apenas uma das partes pode-se ressuscitar o Sombrio.

Na Sina de Prometheus o Sombrio, após sofrer o Voo do Dragão, não tem seus órgãos recolocados, é levado a um lugar ermo e de difícil acesso, amarrado com correntes de quartzo por suas extremidades, pescoço, pernas, braços e cintura, de forma que fique imobilizado, em pé, normalmente a uns trinta centímetros do chão. Sua pele é totalmente esfolada com ralador feito de quartzo e cobre, em seus ferimentos é colocado sal de quartzo e óleo de baleia. Sua traqueia é repuxada para fora e colocado um tubo de quartzo entre ela e os músculos do pescoço evitando que o Sombrio possa gritar. Dessa forma é deixado. A dor é insuportável, pede para si a morte, mas está se nega a vir. É um suplício eterno. Onde, quando se acostuma com a dor, a loucura já faz companhia há muito tempo.

Merrian se lembrou daquele que fora seu amigo e que nesse exato momento em algum lugar estava a sentir esse suplício. A lembrança lhe fez recordar de sentimentos que preferia deixar esquecidos. Apertou com força a bengala, uma cabeça de Mamba Negra que fora esculpida em ônix.

"Ele mereceu... Nós dois merecemos!"

Alguém estava na porta do quarto...

—  Merrian? Está aí?

—  Sim — respondeu indo para a porta.

—  Sou eu, Dândara.

—  Eu sei. — sorriu ao abrir a porta para a mulher de quase mil anos.

—  Como se sente hoje meu rabugento favorito?

—  Bem, pelo jeito Grigore vai continuar com sua insanidade?

—  Agora não tem mais como ele voltar atrás, você sabe... — disse ela entrando no quarto sem nenhuma cerimônia.

—  E ela, já deu a resposta?

—  Não. Mas acredito que será positiva.

Dândara sentou na cama afundando-se no colchão suave.

—  Logo elas estarão aqui.

—  Elas? Como assim elas? — Merrian sentiu um arrepio na nuca.

—  É... mas esse não é necessariamente um problema. — levantou e ficou de frente a Merrian.

—  Ela tem uma amiga, alguém que gosta muito. Uma irmã. Como ela mesma diz. E antes que me pergunte essa amiga não sabe de nada. — disse fazendo uma careta.

—  Grigore é louco! E eu preocupado com ele...

—  Não deve, vai dar tudo certo. A moça está vindo conhecer os amigos do futuro marido de sua melhor amiga. É apenas o que ela sabe.

—  Espero.

—  Elas devem estar chegando... Você vai jantar conosco, não é?

—  Sim, prometi a ele que iria participar dessa... Pelos Deuses! Maluquice! — Merrian fez um som de asco.

—  Ah! Merrian... Ele está feliz e são tão poucos os momentos de paz e felicidade que temos que o melhor é aproveitarmos o máximo que pudermos.

Dândara mal fechou a boca e escutaram Grigore chegar com as convidadas. Ela desceu primeiro, já que Merrian passaria no escritório antes de seguir à sala de jantar. Dândara era uma mulher bonita, não exatamente esguia, os cabelos loiros moldavam seu rosto em corte Chanel desfiado, os olhos eram castanhos, e a pele olivada denunciava sua origem hispânica. Gostava de usar roupas ousadas e de variadas cores, assim fugia da soturnisse que aquela casa se tornara. Estava com Elijah há muito tempo. Ela não sabia ainda se era ou não a Tertius dele, mas ela era o que ele tinha e ele o que lhe havia restado de toda tragédia. Como castigo por esconder Silas, a Ordem fez com que Elijah dormisse por duzentos anos no Sono de Thanatus. Foi Dândara que o acordou quando Paulopus lhe permitiu. Eles sofreram horrores por conta de um romance malsucedido.

Todos sem exceção!

Silas era o único que podia ter evitado tanto sofrimento. Com seu orgulho, sua incapacidade de perder. Podia ter libertado Soria. Ela não era sua Tertius, também não se soube se era a Tertius de Merrian. Talvez Soria fosse apenas a mulher por quem dois homens se apaixonaram e se perderam e que amava apenas um deles...

Ordem a matou assim que soltaram Merrian e prenderam Silas na Sina de Prometheus.

Merrian sabia que Paulopus a mataria, ele guarda suas cinzas em um lugar onde ninguém sabe.

A morte de Soria machucou a Merrian mais que seu próprio suplício. Nunca superou sua perda totalmente. No entanto para Silas foi diferente. Ele a amava, não como a uma Tertius, não com paixão e loucura, mas a amava e sentiu sua morte mesmo estando tão distante. O tempo, com Silas, não foi capaz de destruir os sentimentos.

A dor e o ódio que sentiu quando tudo aconteceu tornaram-se maior a cada dia.

Merrian perdera Soria, mas Silas...

 

“Ahhh! Silas perdera tudo!”









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