Diálogo de Merrian e Augostín (Sombrios - Marjory Tolentino)




"Sinto falta de algo que não vivi, saudades de alguém que não conheci.
Meu coração sofre por um amor que não senti. Perco-me em um oceano de sentidos, onde meus sentimentos se confundem e vagueiam entre pessoas estranhas, com estranhos desejos e às quais o estranho sou eu.
Este lugar... Sufoco nesta época a qual não pertenço. Sufoco com a falta do toque em que a profundidade é rasa demais para ser sentida e por isso me vejo obrigado a ignorá-la. Os dias me torturam ao passo que tento ser quem não sou. E se arrisco mostrar o meu âmago, sofro ao perceber que ninguém é capaz de me atingir.
Até quando suportarei viver neste mundo à margem de todos Augostín? Até quando suportarei a solidão sufocar-me? Solidão, este monstro que me persegue, quimera dos que não se conhecem e se buscam vorazmente.
Devem existir algum meio de encontrá-la... Uma alma não pode ter sido criada para  ser quebrada e passar pela eternidade sozinha em busca do seu outro eu.
Onde se encontra minha outra parte? Aquela que tem como destino me pertencer, aquela que, onde esteja, sente o que eu sinto. Que, assim como eu, vaga entre as pessoas a procura daquele que desconhece... Vive entre os vivos, como eles, mas de coração morto.
Onde está, e por que não me encontra? Onde estou, e por que não a encontro?
Não nos vemos? Não me sente?
Porque eu a sinto a cada dolorosa inspiração que este corpo se obriga a executar.
Sua falta me dilacera por dentro, como um verme que se enrijece alimentando-se de minhas entranhas. É a dor da distancia que a própria distancia causa nela, refletindo em mim a saudade que sente daquele que a ama desesperadamente, mas não pode tê-la."




Comentários

  1. Muito bom, menina! Sobre falta, uma vez, um fantasma me disse:

    "DEPENDÊNCIA DO AMOR QUE LHE É NEGADO É VÍCIO QUE MATA POR FALTA. Deliriuns tremens do existir, cold turkey cármico, overdose de nada! Síndrome de Abstinência daquilo que, em muitos casos, nem chegou a ser provado. Falta do que nunca teve e ainda assim faz falta. Vício que só tarde se descobre. Quase sempre, quando se dá conta da dependência, ela já consumiu o viciado. Ele percebe no vazio que dá lugar à ausência do objeto de seu desejo. Mas, no fundo, o vazio vem mesmo é da alma que com ela se foi ou por falta dela partiu. Pois posso lhe dizer amigo que nesses casos, quando morre o homem, morta já estava a alma. Talvez por isto para tal vício não exista reabilitação ou tratamento. Depois de perdido o espírito, ao viciado resta apenas duas opções: Ou fica e definha ou queima de vez..."

    Boa noite, Marjory!

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    1. Olá César! Que bom que gostou...Pois é bem isso que o personagem sente, agravado pelo fato de sempre ter sido (ou pensar ter sido) ignorado por todos que amou.

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