A Melhor Defesa
Tentou encontrar algum sentido em tudo aquilo, mas não
conseguiu. Não doía somente o rosto e o corpo maltratado pela violência que foi
submetida.
A dor passaria, mas logo seu algoz estaria de volta.
“Teria tempo de sair e pedir ajuda? Teria tempo de
esconder-se?”
“Não!” — definitivamente isso não funcionava. Já o fizera
antes e ele sempre se saía bem. Essa atitude só faria piorar as coisas, só
aumentaria a raiva na qual ele adora se afundar, assim julgava ter motivos para
bater e bater, mais e mais.
Com esforço levantou-se do chão e foi ao banheiro para se
lavar...
Estava um horror!
Tinha um corte acima do olho esquerdo, quase na fronte, os
cabelos loiros e longos se desprendiam com facilidade por terem sido puxados
seguidamente com tanta força. Era claro, porém, que muito mais que seus
hematomas e ferimentos o que lhe doía era sua alma que por muitas vezes pensou
haver perdido.
Não amava mais. Não sentia nada mais além da dor e do medo.
Medo de ir embora e ele por fim em sua vida como tantas vezes lhe jurou
enquanto trepava com ela, deixando claro que se fugisse morreria. Com certeza
não a deixaria permanecer viva! Não via outra escolha a não ser suportar seu
destino.
Depois do banho, voltou à sala para limpar o próprio sangue
que manchava o chão. Ele não gostaria nada de ver, ao chegar, que a casa estava
suja e bagunçada por conta da surra que recebera. Enquanto limpava, lembrou da
sua adolescência, de quando se apaixonou pelo homem que hoje fazia com que
sofresse tanto. Um carro parou em frente à casa. Estremeceu.
“Será? Já?” — Precisava de ajuda. O medo. Os vizinhos! A
polícia! Alguém! Mesmo impedida de gritar devem ter visto ou escutado alguma
coisa. Por alguns segundos esperou.
Não era o socorro.
Ninguém a ajudaria, ninguém a tinha ouvido. O carro
permanecia em frente ao portão. Isso era um problema, se voltasse agora teria que
explicar que não havia ninguém em casa e com certeza não acreditaria.
Foi um homem gentil. Tentou lembrar quando foi que ela o
havia perdido, quando ele havia se tornado o monstro de agora. Viveram felizes
por dois anos. Era muito jovem e cheia de sonhos, queria ser arquiteta como seu
pai, mas seu amor pelo homem foi mais forte. Tudo o que ele dizia, ela fazia
lei. Teve alertas de sua mãe, ela tentou mostrar onde errava, mas não conseguia
na época ver.
Ele era tão bom e amável...
Ninguém, a princípio apaixona-se por um monstro. O Diabo
sempre se apresenta em sua melhor forma!
Ele, de alguma forma, a fazia sentir-se culpada por nunca
poder servir a janta no horário, por ele nunca ter roupas bem passadas, pela
casa sempre estar desorganizada, devido o adiantado da hora que chegava da
faculdade. Acabou por ceder a seus pedidos quando surgiu a gravidez. Era um
menino. Já sabiam o sexo! No oitavo mês ele a surrou. Chutou tanto sua
barriga...
Teria ido para o pronto socorro, tentado salvar a criança,
mas ele a trancou no banheiro. Quase morreu junto com o bebê, e lamentou muito
isso não ter ocorrido.
“Merda!” — pensou.
O carro não saia
dali. Não suportaria mais uma sessão de murros agora. Morreria se isso
acontecesse. Quem sabe seria melhor, assim ele a mataria e acabaria com o
tormento de uma vez por todas.
Foi ao quarto, abriu o armário, pegou a mala e começou colocar
a esmo algumas peças de roupas nela. Para vestir escolheu um vestido, presente
de sua mãe, nunca o usou... Seus pais haviam morrido em um acidente de carro há
pouco tempo. Passando a mão pelo tecido leve sentiu uma leve saliência. Um
saquinho costurado com maestria no avesso do vestido abrigava um papel e um
pacotinho azul. Com cuidado desdobrou o pequeno bilhete.
“Querida Sofia Serei breve: Use com sabedoria o presente
que lhe dou. Ele libertará você de todas as suas amarras. Que Deus a proteja.
Te amo.”
Mamãe
No pacotinho azul um pozinho branco recheava seu interior.
Alguns transeuntes passavam na calçada, o burburinho de conversa soava em seus
tímpanos como ecos de um além conhecido.
Os pelos de seu pescoço arrepiaram.
Tinha que parar de se assustar à toa.
Agarrou-se ao saquinho como se este fosse sair correndo.
Na cozinha a geladeira abrigava apenas água. O coração deu
um salto no peito.
Barulho na rua outra vez!
Estava demorando... Ele logo chegaria!
Correu para o quarto e terminou de arrumar suas coisas.
Tinha que se apressar. Desceu as escadas aos pulos e pegando a bolsa deu uma
última olhada para a casa. Quando virou a esquina, a dois quarteirões, pode ver
um homem entrando em sua casa.
Limitou-se a apressar o passo.
O sol da manhã brilhava forte quando acordou.
A nova língua era difícil, mas logo se acostumaria.
Dois dias se passaram desde que fugiu e nem sinal dele.
O trem parou e o alguém alertou que os passageiros tinham
quinze minutos para suas necessidades.
Tinha fome.
Comprou alguns biscoitos e tomou um café.
Na saída, também pegou um jornal.
Em letras miúdas apenas uma nota trágica entre tantas outras
das páginas policiais lhe chamou a atenção.
“Homem é
encontrado morto, pelos vizinhos, em sua casa após sofrer uma parada cardíaca.”
Ele era de sua cidade.
Mas ignorou seu nome.
Tirou um saquinho azul, vazio de seu bolso e o jogou no lixo
junto com o jornal.
Era melhor
apressar-se ou o trem partiria sem ela...





Que texto maravilhoso!!!
ResponderExcluirFiquei arrepiada. Parabéns ;-)
Uaaau! Vc escreve muito bem! Parabéns pelo texto!
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