Olhos de Cão
Procuro encontrar algo que me liberte desse ódio que existe
aqui dentro, mas não consigo. Talvez por isso deixei que me dominasse, talvez
por não saber enfrenta-lo ou apenas por não entender o que aconteceu de
verdade. Talvez... Esteja louco realmente e somente me reste a loucura como
marco de direção mais confiável... Sempre encontrei em uma pessoa que não gosta
de animais um ser humano maléfico. Mas e se é o animal que não gosta dela então
é pior ainda, isto demonstra que ela é um ser desprezível. Este ponto de vista
viria a mudar após os acontecimentos dos quais fui protagonista.
Já disse que a loucura não me é estranha, pelo
contrário, é minha fiel companheira desde aquela noite. Vou deixar escrito o
que vi e se alguém duvidar posso somente esboçar um ‘sinto muito’ irônico. Meu
ceticismo veio abaixo depois do que vi e se o que eu vi não for o mal, então
concluo que este não existe.
Tinha os olhos mais lindos que já vi, de cor castanha
esverdeada, possuía um contorno negro nas pálpebras, como as mulheres costumam
fazer com a maquiagem. Tal efeito contrastava maravilhosamente com sua
abundante pelagem dourada e larga. Eram olhos extremamente convidativos ao
carinho. Não o escolhi, ‘ele’ me escolheu. Tinha outro nos braços quando se
chegou a mim cheirando e lambendo minhas botas. Calmo e tranquilamente
sentou-se e limitou-se a me olhar... Não resisti...
Eu até gosto de gatos, eles é que não gostam de mim, tentei
varias e varias vezes tornar um deles meu amigo, mas sempre fugiam sem nunca
mais voltar. Então desde pequeno me apeguei aos cães. Eles sempre se mostravam
mais amigos, dependentes e de uma fidelidade incondicional. Não me lembro de um
único período da minha vida no qual passei sem ter um deles ao meu lado.
Nossos primeiros meses foram sem mais novidades, como
qualquer inicio deve ser, ele de posse dos seus cinco meses, na fase de
destruir qualquer coisa que lhe viesse à frente e eu de arrumar os estragos e
educá-lo. Nunca usei de violência para com um animal. Conforme o tempo passava,
ele se tornava maior, mais esperto e muito mais... Independente. Nunca vi um
cão tão dono de si mesmo como aquele. Mal parecia um cão, era um cão com alma
de gato: Livre!
Um pouco antes de tudo começar ele teve uma febre muito
forte, passei duas noites cuidando daquele que julguei ser meu fiel amigo.
Quando a febre se foi deixou-lhe sua marca, um espasmo, como
se estivesse em constante soluço, como se um soco o obrigasse a abalar a cabeça
para cima e para baixo, um “tique” creio eu, como nas pessoas acometidas pela
síndrome Gilles de Tourete.
Foi então que sem mais nem menos ele deixou de me obedecer,
como se não adiantasse gritar, pedir ou até mesmo bater, fiz de tudo. Levei-o
em centros de adestramento, mas com pouco mais de duas ou três sessões ele era
notoriamente expulso. Mesmo assim não me abandonava nunca, se o deixava preso
em casa ele era capaz de destruir a mais poderosa das guias, pular o muro e me
encontrar onde quer que esteja. Certa vez me achou estando há dois dias, na
fazenda de um amigo há mais de vinte quilômetros da minha casa.
Se alguém se aproximava de mim e ele estivesse por perto
nada o impediria de morder a alma infeliz. Passei a entender que as coisas não
iam bem, quando passou, não contente em morder os meus, mas também a machucar
os passantes da rua. Um dos fatos e pra mim
o pior deles foi quando atacou uma menininha de pouco mais de cinco anos que
brincava com seu gatinho na praça que fica perto de casa. A pobrezinha depois
de duas cirurgias e uma estadia de três meses no hospital ficou bem, graças a
Deus, estava viva, já o gato não teve a mesma sorte. Este caso me obrigou a
trancafia-lo dentro de uma jaula.
Ali ele passava dias e noites sem dar um gemido sequer.
Nada. Não reclamava, não se debatia... Nada! Algo em seus olhos mudou, não a
cor, mas a intenção deles, olhos que antes eram brilhantes e carinhosos agora
estavam opacos e com uma expressão demoníaca. Um animal lindo, que se
encontrava num estado tão deplorável que dado a tudo que ocorrera não podia
deixa-lo solto e também não me conformava em vê-lo preso e definhando a cada
dia. Um amigo meu se apiedando dele sugeriu a ideia de leva-lo a adoção... Ah!
Grande engano o meu... Em menos de uma semana estava adotado, bonito como era e
como se soubesse o que acontecia, se mostrou muito simpático aos novos donos. Voltei
para casa com a consciência tranquila, ele estaria bem e assim poderia ate
mesmo ter uma melhora em seu comportamento indócil.
Qual não foi a minha surpresa, alguns dias depois ele
aparece de volta, ofegante e com o focinho, pescoço e patas lavados em sangue.
Liguei com urgência na casa do jovem casal que o adotara, desesperado, temendo
o pior perguntei o que aconteceu. O jovem se mostrou muito nervoso quando citei
o animal e me contou angustiado que ele matara todos os seus outros animais e
ainda o mordera, quase lhe arrancando a mão do pulso, quando tentou impedi-lo.
Sem saber o que fazer trancafiei a fera outra vez na cela de
onde jamais devia ter permitido que saísse.
Por alguns dias perdi o sono com uma questão que me
atormentava, e numa noite, não me recordo qual exatamente tornei-me simpático a
ela. Já há tempos vinha amaciando e sovando uma ideia, como se amacia e sova a
massa panifica, e quanto mais se sova tal massa mais ela cresce e toma forma,
assim fiz com a ideia macabra. Devido a uma infestação de ratos que teve em
minha casa me vi obrigado a ir ao velho boticário e adquirir um poderoso
veneno. Era tão medonho o poder do liquido mortífero que com algumas gotas
exterminei todos os ratos, sobrando mais de um quarto do veneno no frasco.
Acompanhado de uma saborosa fatia de carne embebida em tal fármaco, me pus
diante daquele que um dia foi meu amigo e lhe ofereci o alimento que o levaria
ao Hades.
Claro, acredito que àquela época ainda lhe restava um pouco
do instinto dos Canis lupus familiaris, pois comeu com gulodice seu fim. Não
quis ficar para ver o animal dar seu ultimo suspiro, não queria ter em minha
mente uma visão que julgava horrível. Sai. E horas depois quando voltei, ele
estava encolhido, da boca saia uma substancia branca espumosa, havia evacuado
todo seu sangue antes de morrer por todo o chão da jaula havia poças vermelhas.
Seus olhos negaram-se a descansar, coisa que eu mesmo os obriguei antes de
enterra-lo perto da fazendinha, onde as crianças da vila brincavam, logo atrás
da serra. Ali ninguém passava, a não ser o gado.
E tive sim, por certo tempo, paz. Tudo caminhava como o
esperado. Posso dizer que ate mesmo o ar se encontrava mais leve. O inverno já
se aproximava e naquela noite ventava mais que o habitual. De súbito achei que
fosse o vento, depois quando os uivos tornaram-se mais intensos pensei ser o
cachorro de algum vizinho ou mesmo um lobo que se perdera da matilha, mas quando
as patas começaram a arranhar a porta ficou evidente que era a mim mesmo que
queriam chamar a atenção. Em momento algum pensei no que a realidade me mostrou
ser a origem do barulho. Minhas pernas cambalearam, meu peito parecia que
explodiria por não suportar a violência com a qual meu coração teimava em
bater, queria tomar vida sair de mim.
Não sou capaz de descrever o estado em que ele se
encontrava, mas pude ver os olhos e na penumbra da noite fui capaz de decifrar
mesmo sem acreditar de quem eram. Olhando para mim com total ternura fitei pela
fresta da janela, os próprios olhos do demônio. Na rapidez dos que não pensam
fechei a porta e corri ate a caixa onde guardava um revolver que fora do meu
pai, não sabia sequer se funcionava, mas arrisquei... Tremulo e amedrontado
caminhei de encontro a ele. Ao abrir a porta o que entrou em casa era um ser
disforme, de aparência apodrecida e nauseante. Dois tiros foram suficientes
para derruba-lo e o cutelo terminou o serviço. Cortei-o ao meio e colocando em
sacos à parte o enterrei novamente, dispondo de lugares distintos para cada uma
delas. Vejo, hoje, que já me encontrava perturbado!
Em casa banhei-me e me desfiz de qualquer lembrança daquele
cão atormentado. Mas o meu sossego deu-se até a noite cair novamente. Outra vez
pude ouvir os agoniantes uivos que eclodiam do quintal. Até hoje não sei se o
que eu temia era o demônio ou o fato de acreditar estar louco. Mas buscando a
coragem em um lugar muito intimo fui à varanda, o que vi me deixou muito mais mortificado
que a noite passada, apenas metade do cão se arrastava em direção à casa,
descarreguei o revólver nela, mas só serviu para piorar a sua aparência já em
estado muito avançado de decomposição. De repente aquilo parou e pensem qual
fora o meu desespero quando vi a outra metade indo de encontro com a primeira.
Como algo em sonho, (penso estar neste pesadelo ate hoje) as duas juntaram-se
novamente e o cão tornou-se inteiro.
Não lembro muito bem o que aconteceu depois. Acordei aqui,
na ala psiquiátrica desde hospital que nem sei exatamente onde fica. Não me
lembro de ter um desses na região onde moro. Não estou apavorado e nem me
recuso a ficar aqui, acredito que seja o único lugar onde esteja seguro. Às
vezes quando a noite vem, quando tudo se aquieta, escuto os uivos, e se olho
pela minúscula janela da jaula onde me encontro, posso ver os olhos do
demônio...





Nossa!!! Me arrepiei toda... Muito bom, Marjory. Você é uma escritora maravilhosa... Como senti falta de seus textos!!!
ResponderExcluirTe adoro.
Bjs.
Obrigada! Fico feliz de você ter gostado! :)
ResponderExcluirLindo, perfeito!
ResponderExcluirObrigado pela visita e comentário, seu blog é show!
ResponderExcluirObrigada pessoal, por terem gostado do conto. Amo escrever e não existe nada melhor do que ouvir um "Gostei!".
ResponderExcluirEscrevo com a alma...O blog ainda esta em 'transformação', mas logo, logo vai estar do jeitinho que eu quero! Até mais!!