O assassino - Marjory Tolentino
O sangue percorria seu
corpo com rapidez, os músculos tremiam e algo doía por dentro. Ela era tão
cheia de vida, tão bonita... Estava entre as mais belas que já teve.
Nenhum escapava à sua
fúria quando ela se apresentava, homens, mulheres, crianças... Não que se
arrependesse, era necessário, só não queria mais ter que fazê-lo. Não desejava
matar, desejava viver! Não tinha escolha, nunca teve. A ânsia por tomar vida de
outrem era insuportável. Negava, passava muito tempo afastado das pessoas, mas
quando o desejo vinha não o abandonava. Tinha medo de ficar sozinho consigo
mesmo e enlouquecer de vez.
Precisava ir embora.
Logo amanheceria, e ninguém poderia nota-lo ali.
Era um homem livre (por
hora). Um dia alguém o denunciaria. Teriam que perceber quem era, ou então ele
mesmo se entregaria e assim acabaria com sua infernal existência. Talvez,
alguém viu ele matar a moça que cheirava a tempranillo¹ fresco. Ele viu os olhos. Olhos que o
procuravam.
Se tivesse coragem para
tornar público seus atos... Se o vissem, acabaria esta agonia.
"As pessoas o
perseguiriam novamente e desta vez dariam fim ao que desonrosamente chama de
vida. Assassino! Pária! Demônio!"
"Lembra? As pessoas
ensandecidas, borbulhando de ódio a vingar entes queridos, que você destruiu.
Que você carrega em si. Enfrentaria a fogueira novamente? Covarde!"
A voz! Agora era assim,
ela o atormentava quando a necessidade chegava e também quando a saciava. Antes
de levar a jovem para encontrar-se com seu destino naquele beco fétido ela o
incitou e outra vez se fazia presente!
― Estou louco! É isso!
Enlouqueci! ― pensou consigo, sorrindo cínico.
"Vai matar amanhã? O
que será? Quem será? Um homem ou uma mulher? Ah!" ― uma risada fina e compassada
cruzou sua consciência...
"Desta vez será
animais? Lixo!"
― Maldita! ― gritou para
si mesmo, mas sua voz rouca ecoou pelas ruas vazias. A voz não o deixava em
paz! Estava com ele há anos. Sempre o culpando por fazer o que sua mente e seu
corpo queriam, mas que seu coração recusava.
De todas as pessoas que
tirara a vida, nunca deixou que nenhuma gritasse ou olhasse em seus olhos. Era
cuidadoso. Porém hoje cometera o erro. A mulher bela, de olhar intenso, por um
fragmento de tempo olhou dentro de seus olhos tão profundamente que queimou sua
alma.
A chuva fina tornava as
ruas íngremes, escorregadias. Ouviu falar que uma tempestade se aproxima. Não
importava. Nada o amedronta mais que a si próprio.
― Os loucos homens da
ciência deste infante século XVIII julgam saber tudo! ― um sorriso irônico
estampou-lhe o rosto.
― Eles não fazem ideia o
quanto ignoram.
Tentaria dormir quando
chegasse ao hotel. Sabia que sonharia.
― Olhos negros e
brilhantes. Intensos... Vivos. ― repetiu para si. Sua face tornou-se rude ante
a lembrança.
O homem de boas vestes chegava um tanto desalinhado à recepção do hotel barato. O cheiro de café, álcool e cigarro o entorpecia. Pegou as chaves das mãos da velha e gorda recepcionista, uma mulher de horrível aparência que se apoiava sobre o balcão, sorriu-lhe deixando-o ver as falhas de dois incisivos superiores.
Começou subir as
escadas com dificuldade. Lutando com os degraus para que não rangessem tanto e
rompessem sob o peso do seu corpo que além de si levava as almas de outros.
Suava. E o suor descia espesso por suas têmporas. Estava cansado, a mulher não
fora suficiente.
No quarto, um cubículo
com pouca iluminação que fedia a urina e mofo, estava seus pertences, que se
resumiam a um velho baú e uma valise. O lugar de tão ruim era seguro. Ninguém o
procuraria naquele inferno. Sorriu ao pensar nisso.
― Quem procuraria o
demônio no inferno? Quem se atreveria?
Lavou suas vestes,
tomou um banho e deitou-se na cama, nu e ensopado de água. Antes que o sono
chegasse e o dominasse, veio a sua mente o olhar da sua ultima vitima. Aqueles
olhos profundos, olhos negros tão vivos e brilhantes. E seu toque ainda se
fazia sentir em sua pele. A vívida lembrança deles ficou em sua mente até
adormecer em um limbo mortal.
Amanhã quando a noite
cobrisse a cidade novamente com seu lençol de escuridão, e a necessidade se
fizesse presente, teria que encontrar outro alguém. Não importaria quem fosse.
Alimentar-se-ia da energia de um ser, porém desta vez seria mais cuidadoso. Não
olharia em seus olhos...
Nota do autor¹: Tempranillo é uma casta de uva tinta da família da Vitis vinifera, uma das castas mais conhecidas da Península Ibérica. Originária do norte da Espanha, também é muito cultivada em Portugual, onde é geralmente conhecida como Aragonez, ou Tinta Roriz na região do Douro.
Nota do autor²: Este conto é uma adaptação de uns dos trechos do Romance "Sombrios" da mesma autora.





Gostei de ler esse conto sobre o vampiro atormentado pelo olhar marcante de suas vítimas, muitos assassinos dizem que esses olhares e outras expressões deixam marcas na mente de um assassino. Esse vampiro do texto ainda não banalizou as mortes, por isso se fere ao ferir os seres aos quais ele consumiu a vida.
ResponderExcluirO local em que ele se instalou é decadente o bastante como seu interior, gosto desses vampiros que estão no fundo do poço, mas ele poderia ficar num lugar mais refinado, devia lhe faltar dinheiro para isso. Nem todos tem sorte na imortalidade. rs.
Beijões.
*-----* Totalmente impecável!
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